Brasília, a dualidade duma cidade planejada

 

Brasília é uma cidade de amores e desamores. Não existe uma conversação sobre Brasília sem pessoas fazendo careta, torcendo o bico ou se reservando de comentários. Sempre fiquei intrigado, pois a maioria dos brasileiros não gosta de Brasília mas também a maioria deles nunca visitou a cidade. E como pessoa curiosa que sou, decidi ir e conhecê-la com meus próprios olhos para entender o que acontece com a Capital do Brasil. Depois de passar quatro dias em Brasília, acredito ter conhecido de perto um pouco a cidade planejada.

Começando pelo lado positivo. O simples fato de chegar a Brasília vai fazer de sua viagem uma experiência inesquecível. Esta é uma cidade única. Dificilmente você poderá compará-la com outra cidade que já tenha visitado. A capital brasileira é uma verdadeira obra de arte. Graças à sua arquitetura e ao seu urbanismo, foi considerada Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

A arquitetura

Assim que você chegar, vai notar a imponência das construções e a sensação de liberdade que elas oferecem. Também notará os grandes espaços abertos e áreas arejadas. Por exemplo, o aeroporto não tem portas nem fachada.  A cidade foi planejada pelo urbanista Lucio Costa e as construções foram criadas pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Além disso, tem obras de Alfredo Ceschiattti, Dante Croce, Marianne Peretti, Athos Bulcão entre outros, espalhados em cada canto do plano piloto.

Brasília encantará você em cada rua, em cada prédio e em cada parque. A arquitetura, o paisagismo e a arte se misturam ao longo deles, fazendo-o um espetáculo digno de admirar.

Eu estou acostumado com cidades gigantes, caóticas e cheias de arranha-céus, aqui você dificilmente sentirá a pressão das grandes cidades. Pelo contrário, você se sentirá flutuante e perdido dentro dela. É dificil achar uma cidade com tanto espaço assim. Mesmo dentro das construções você sentirá essa sensação de imensidão. Fora delas, as largas avenidas e vias expressas lhe darão a sensação de estar num subúrbio Norte Americano.

Uma dica: não se deixe enganar pela perspectiva. Os prédios parecem estar muito perto de você mas, realmente, eles não estão e você pode ter que caminhar muito até chegar lá.

A natureza

Sinceramente, nunca esperei que Brasília fosse uma cidade tão verde. É difícil encontrar imagens representativas da cidade referentes a suas áreas verdes, principalmente, quando cada peça de concreto é uma obra de arte. Mas Brasília surpreende também pelas amplas reservas naturais, parques, áreas arborizadas e paisagens naturais deixando a cidade com uma harmonia e um astral incrível. As opções são diversas, desde trilhas ecológicas, esportes aquáticos, piscinas de água mineral ou, até, uma tarde de piquenique no parque.

O clima

Quando você vê aqueles prédios abertos e alguns até sem fachada, você começa a entender que o clima em Brasília é um dos melhores do Brasil (quando você mora numa área de instabilidade climática como Porto Alegre, meu caso, qualquer clima parece ideal).

O clima seco de Brasília é com certeza o melhor que eu já vi. Com uma temperatura média de 21º C , nunca é frio nem quente demais (mesmo assim não esqueça de levar um blusão, pode ser frio à noite). Porém, no mês de agosto, a umidade pode chegar ao redor de 15%. Situação nada agradável para o corpo humano, por isso, você verá umidificadores de ar ao longo de shoppings, restaurantes e prédios em geral.

Não posso deixar de falar do céu de Brasília. Quatro dias talvez seja pouco para ter uma ideia geral, mas Brasília parece ter o céu perfeito. Quase sempre é um lindo dia de sol, e seja onde você estiver parece que você pode tocá-lo.  Sempre azul e limpo, imenso, brilhante e vasto. É completamente animador. Com certeza, pode ser enganação, acredito que tenha dias ruins de chuva, mas para mim, foi o suficiente para amar a cidade.
Um museu pouco econômico

O investimento que Brasília faz em cultura é gritante. Onde quer que você vá, encontrará uma exposição de arte gratuita. A maioria dos prédios estão abertos aos visitantes e alguns deles contam com visitação guiada.

Por outro lado este grande museu a céu aberto não é barato de visitar. Começando pelo transporte público que é escasso e insuficiente. A cidade foi planejada para os carros não para os pedestres. Por tanto as pessoas são forçadas a ter um e até dois carros (já podem imaginar o trânsito na hora de pico). Também tem pouco semáforo, faixa de pedestre ou passarelas. O metrô, que interconecta as cidades satélites com o plano piloto, não chega a todos os pontos dele. Se você for para Brasília,  lamentavelmente, a minha recomendação é andar de carro. É a única forma de conhecer a maioria dos lugares em pouco tempo. Não se arrisque em caminhar. Eu, que adoro caminhar pelas cidades, mas, neste caso específico, não recomendo.  As distâncias são muito grandes e você não aproveitará nada. Você pode caminhar 30 minutos sem que a paisagem mude em absoluto, devido à perspectiva da cidade.

A sua viagem também se verá encarecida pelo custo da alimentação. Com certeza você poderá achar restaurantes econômicos, mas perderá muito tempo procurando um.

O plano piloto e as cidades satélites

O projeto urbanístico de Brasília é conhecido como o plano piloto. Ele tem forma de avião ou cruz (uma ponta em cada eixo cardinal). Com um eixo monumental onde se encontra a esplanada dos ministérios e duas asas onde se encontram os blocos comerciais e habitacionais. Os blocos residenciais são prédios retangulares e altos que se intercalam por ruas comerciais com prédios baixos, o plano era que as pessoas não precisariam se locomover longas distancias para fazer compras.

Em Brasília você sentira estar vivendo um deja-vu constantemente, pois a cidade toda tem o mesmo formato. Talvez você sinta que já passou por essa quadra ou por tal rua mil vezes num dia. Fique de olho para não se perder.

Ao redor do plano piloto foram criando-se as cidades satélites. Local onde mora a maioria da população. Elas são consideradas por seus moradores como parte de Brasília, mas realmente estão fora e longe do plano piloto. Na verdade é uma situação bastante confusa para os turistas. Enquanto você não chegar lá, não entenderá o que é o plano piloto e o que são as cidades satélites, que em conjunto formam o Distrito federal de Brasília (se eu entendi bem). Por tanto, antes de chegar, saiba bem em que parte você ficará, pois dependendo disso terá que começar a fazer cálculos para o táxi ou o aluguel do carro.

Crescendo numa cidade planejada.

Brasília é a prova de que somos, em parte, o resultado de nosso ambiente. E devo agradecer aos Brasilienses que me ajudaram a entender como é crescer em Brasília. É como crescer em uma realidade paralela.

Como tudo o que é planejado, parte de uma base lógica, e é essa a rainha em todos os aspectos da cidade. Além disso, aqui se faz mais uso das abreviaturas do que no Brasil todo. A cidade está dividida por regiões ou blocos dependendo de sua localização geográfica (norte, sul, leste ou oeste). Assim, os endereços são bem diferentes do que você já viu. Pois os blocos estão enumerados em ordem ascendente a partir da região central para os extremos. Um endereço pode ser CLSW 300 (Comércio Local Sudoeste). Eu sei, parece complexo, mas uma vez estando na cidade e entendo as lógicas dela, é muito fácil de localizar-se.

As pessoas que cresceram em Brasília geralmente se perdem com facilidade em outras cidades, sentem se sufocadas em espaços fechados e superlotados. Também pode ser estranho, ao inicio, estar em ruas atoladas de prédios altíssimos que mal da para ver o sol.

Em Brasília o comercio é diferente do que você já viu. Pois você não achará uma tendinha ou um supermercadinho em qualquer lugar, muito menos um vendedor ambulante (pelo menos não durante os fins de semana). O comercio todo está concentrado em pontos específicos.  Se você é das pessoas que tem fome o tempo todo, como eu, leve agua e comida na sua mochila. Quando a fome atacar no meio do seu passeio, acredite em mim, pode demorar um tempo achando um lugar onde comprar alguma coisa.

Aqui, também não existem os bairros Boêmios ou tradicionais. Tem poucos bares e clubes e eles estão espalhados em diversas regiões. Somando que o metro funciona até as 23h30minh, você pode inferir que fazer festa em Brasília precisa um pouco mais de planejamento do que você faria em qualquer outra cidade do Brasil.

O contraste

Além de ser reconhecida pela beleza arquitetônica e urbanística, Brasília também é reconhecida por ser uma cidade cheia de contrastes. Não muito diferente do Brasil e da América Latina em geral. A periferia esconde do turista uma realidade de desigualdade social e pobreza.

Quando cheguei fiquei curioso ao ver que não tem mendigos ou pessoas pedindo dinheiro nas ruas, especialmente aos fins de semana.  É claro, o transporte publico é quase inexistente durante esses dias, as distancias são gigantescas para serem percorridas a pé, por tanto a população que não tem carro fica fora da cidade.

Talvez Brasília seja uma boa opção para andar de bicicleta, pois é uma cidade plana e com grandes vias, porem não existe um sistema de aluguel de bicicletas como em outras cidades do Brasil, e o plano de ciclo faixas recém está começando. Acredito que numa cidade que foi feita para os carros a cultura do transporte verde ainda esteja imatura, mas vale a pena esperar um tempo, talvez Brasília nos surpreenda num futuro próximo.

Pessoalmente eu gostei muito de Brasília, é um choque de frente com seus conceitos e o modo de viver na cidade. Além disso, conheci uma charmosa cidadezinha do estado de Goiás chamada Pirenópolis (leia sobre o que visitar em Brasília aqui), mas mesmo pela experiência de conhecer uma cidade fora da realidade acredito que você tem que visitar Brasília na sua passagem pelo Brasil.

Por último, leia sobre os passeios que você não pode deixar de fazer em Brasília aqui.

Cristian Figueroa

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